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Flesh, um romance que se lê com o tempo

Comecei a ler Flesh, de David Szalay, nos finais de maio de 2025. Foi uma leitura iniciada num período exigente e, talvez por isso, nunca se tornou linear. O livro acompanhou-me ao longo do verão, ficou em pausa durante meses e chegou comigo até 2026.


Só há cerca de uma semana e meia terminei a leitura, já na parte final, em formato audiobook, uma prática que começo agora a integrar como experiência de leitura.


Flesh é um romance que acompanha István desde a adolescência até à idade adulta. A narrativa constrói-se a partir de episódios discretos, encontros e situações aparentemente banais, mas atravessados por tensões de poder, desejo e desigualdade social. Não há grandes reviravoltas nem dramatizações evidentes. O romance avança com contenção, deixando que o desconforto surja nos detalhes.


O corpo ocupa um lugar central na narrativa. É através dele que o mundo se organiza, que o privilégio se manifesta e que as relações se desequilibram. Szalay escreve sem moralizar, observando como o corpo pode tornar-se moeda, promessa ou limite, muitas vezes sem que as personagens tenham plena consciência disso.


A escrita é precisa, quase clínica, e essa frieza aparente reforça a força do romance. O leitor não é guiado emocionalmente, é deixado a observar, a interpretar e a permanecer com o que não é resolvido. Flesh é um romance sobre crescimento, mas também sobre adaptação, sobre aquilo que se aceita para pertencer.


Lido ao longo de tantos meses, o romance ganhou densidade. As pausas, os regressos e a passagem final para o audiobook criaram um ritmo próprio, que dialogou com a própria estrutura do livro. Flesh não é um romance de consumo rápido. É um romance que se deixa ficar e que só se fecha quando o leitor também está preparado.


Alguns livros contam uma história. Outros acompanham-nos enquanto o tempo passa. Flesh pertence claramente ao segundo grupo.



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