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Começar sem garantias

Filosofia breve sobre o acto de permanecer em movimento.


Começar é, talvez, um dos actos mais complexos da vida humana. Não porque falte vontade, mas porque o início obriga sempre a um confronto. Confronto com o vazio, com a expectativa, com aquilo que ainda não tem forma. A página em branco não é apenas papel, é um espelho. E nem sempre estamos preparados para aquilo que ele nos devolve.


Nos primeiros dias deste ano, a escrita tem-me pedido mais silêncio do que palavras. Há um tempo interior que não obedece ao calendário. Enquanto o mundo avança com resoluções, metas e planos, existe uma parte de nós que ainda está a arrumar despedidas. Talvez por isso começar agora pareça mais difícil do que noutros anos.


Há começos que não nascem do entusiasmo, mas da necessidade. Começos que surgem depois de perdas, de escolhas difíceis, de coisas que tiveram de ficar para trás para que outras pudessem, eventualmente, existir. O problema é que entre o deixar e o florir existe um intervalo incómodo. Um tempo suspenso onde nada é claro e quase tudo dói um pouco.


No ano passado, fui muitas vezes confrontado com uma ideia que me acompanhou de forma persistente. A de que eu era impaciente. A de que não sabia esperar pelas coisas certas. No momento, essas palavras soavam quase como um julgamento, difíceis de aceitar, fáceis de rejeitar. Hoje, passados alguns meses, consigo vê-las com outra clareza. Não como acusação, mas como convite. A espera, percebo agora, não é passividade. É maturação. É permitir que o tempo faça o trabalho que a pressa estraga.


A filosofia lembra-nos que o humano vive neste entrelugar. Não somos aquilo que já fomos, nem ainda aquilo que desejamos ser. Somos transição. Somos processo. E aceitar isso exige humildade. Exige reconhecer que nem tudo se resolve com rapidez, nem tudo se conquista pela força da vontade.

Escrever, nestes momentos, não é produzir sentido, é procurá-lo.


É caminhar sem mapa, confiando que o próprio acto de caminhar já é uma forma de resposta. Talvez por isso a dificuldade não esteja em escrever, mas em aceitar que o texto, tal como a vida, pode começar incompleto.


Existe uma capacidade silenciosa que nos sustém quando tudo parece incerto. Não é força, nem coragem no sentido clássico. É uma fidelidade interior. A fidelidade a continuar, mesmo quando não sabemos exactamente para onde. A fidelidade a esperar sem desistir, a confiar sem garantias.


Este ano apresenta-se como um desafio não por aquilo que promete, mas por aquilo que exige. Exige presença. Exige paciência. Exige a coragem de não preencher todos os vazios demasiado depressa. E talvez seja agora, olhando para os efeitos desse tempo de espera, que começo a compreender que algumas coisas só chegam quando deixamos de as apressar.


Começar, afinal, não é um gesto grandioso. É um gesto humilde. Um pequeno passo dado com cuidado, sabendo que o chão pode ainda não estar firme. Mas é nesse passo, frágil e consciente, que algo verdadeiramente novo pode começar a existir.



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