O erro de Galileu, ou quando deixámos a consciência fora da equação.
- Ricardo Casimiro
- 6 days ago
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Estudei filosofia nos meus primeiros anos de universidade e isso ensinou-me algo simples, mas exigente, nem todas as perguntas estão bem colocadas. Às vezes passamos anos à procura de respostas quando o problema está na forma como começámos a perguntar. Foi a partir daí que li The Galileo Error, de Philip Goff.
Não como quem procura uma teoria nova, mas como quem reconhece um erro antigo que continuamos a repetir.
A ciência moderna explica o mundo com uma precisão extraordinária. Explica como o cérebro funciona, como os neurónios comunicam, como surgem comportamentos e decisões. O problema é que, no meio dessa explicação toda, algo essencial ficou de fora, a experiência de estar vivo.
A consciência não é apenas um efeito do cérebro, é o sentir que algo está a acontecer. Ver uma cor, sentir dor, ter medo, amar, tudo isso não é apenas um processo físico, é uma experiência. E o argumento central do livro é precisamente este, a ciência foi construída de forma a ignorar a consciência, não porque ela não exista, mas porque não cabe facilmente no que pode ser medido.
Goff chama a isto o erro de Galileu. Para que a ciência pudesse nascer, separou-se o mundo em dois. De um lado ficou tudo o que pode ser medido, pesado, calculado. Do outro ficou aquilo que é vivido por dentro. A ciência avançou ao focar-se no primeiro lado, mas decidiu deixar a consciência fora da explicação da realidade.
O ponto importante não é dizer que a ciência está errada. O ponto é reconhecer que ela foi desenhada para não lidar com a consciência. Quando tentamos explicá-la com as ferramentas atuais, ela parece sempre um problema insolúvel. Talvez não porque seja misteriosa demais, mas porque nunca lhe demos um lugar sério na nossa forma de pensar o mundo.
O livro propõe uma viragem simples, mas radical. Em vez de perguntar como a consciência aparece num universo sem consciência, talvez devêssemos perguntar se o universo sempre teve algum tipo de interioridade. Não no sentido humano, mas como uma base mínima de experiência. A esta ideia chama-se panpsiquismo.
Isto muda tudo. A consciência deixa de ser um acidente estranho e passa a ser parte da realidade. O erro deixa de estar na mente humana e passa a estar na forma como definimos o que conta como real.
No fundo, o livro obriga-nos a olhar para nós próprios. Explicamos o mundo cada vez melhor, mas continuamos desconfortáveis com aquilo que sentimos. Talvez porque durante muito tempo aprendemos a pensar como se sentir não fosse conhecimento.
Talvez o erro não tenha sido de Galileu. Talvez tenha sido nosso, por termos aceitado uma ideia de mundo onde a consciência não tinha lugar.



