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O dia em que desliguei...

Lembro-me perfeitamente desse dia. Estava sentado num campus universitário, anos atrás, quando um amigo se aproximou de mim e perguntou se eu tinha Facebook. Não foi uma grande conversa, nem um momento solene.

Foi banal. Tão banal que ainda hoje me lembro do que estava a comer. Lembro-me de lhe passar o computador para as mãos e de, ali mesmo, nascer uma conta. Na altura, parecia quase obrigatório. Tinhas de ter um e-mail da universidade, tinhas de estar ligado, tinhas de saber o que se passava.

Ninguém nos avisa do peso das coisas pequenas.

Ao longo dos anos fui vivendo com essa janela sempre aberta. As redes sociais tornaram-se um hábito, depois um reflexo, depois quase um espelho distorcido. Começaram por ser um espaço de contacto e curiosidade, mas acabaram por moldar silenciosamente a forma como eu pensava, sentia e me comparava.

Aquele gesto inocente, de confiar um computador a um colega, acabou por abrir a porta a um ruído constante que se foi infiltrando na minha vida.

E sei que isto não é só sobre mim.

Vivemos todos presos a esta lógica estranha de apagar e voltar, de sair e regressar, de prometer que agora é definitivo e, dias depois, estar outra vez lá. Nos últimos tempos, já nem era prazer. Era distração. Era anestesia. Era passar o dedo no ecrã para não pensar, para não sentir, para ocupar a mente com coisas que não acrescentam nada.

Hoje tive de sair. Não por impulso, mas por sobrevivência.

Precisei de recuperar as mãos para aquilo que realmente importa. Os livros que ficam por ler, as viagens que ainda me ensinam, os silêncios que fazem falta. Precisei de voltar a estar presente com os meus filhos, inteiro, atento, disponível. O ano passado deixou marcas. Houve desequilíbrios, houve ausências emocionais, houve falhas que reconheço sem desculpas. Sou pai, sou humano e assumo o que errei.

Há uma coisa que nunca quis perder, a honestidade comigo próprio.

Cada um carrega as suas feridas à sua maneira. As minhas já não cabem num feed.


Quando algo que parecia leve começa a consumir-nos, insistir deixa de ser coragem e passa a ser teimosia. As redes sociais deixaram de ser neutras para mim. Tornaram-se um espaço de desgaste, comparação e confusão. Por isso fico por aqui. E fico de forma consciente, quase como quem faz um voto silencioso consigo próprio.

Não é um desaparecimento. Continuo a escrever, a criar, a sonhar, a trabalhar. Continuo grato a quem lê, a quem apoia, a quem acredita. Há projetos sólidos a nascer, passos importantes a serem dados. Mas aprendi, talvez tarde, que nenhum sucesso vale a pena se eu não estiver bem por dentro.

Emocionalmente, nas relações, na forma como habito o meu próprio coração.

Houve dias em que me senti perdido, desligado, exausto. E agora preciso de voltar ao essencial. Preciso de me reencontrar, de me entregar mais a Deus, de viver uma vida menos exposta e mais verdadeira. Menos aparência, mais presença. Menos irrealidade, mais chão.

Quero viver consciente do que prometo, do que ofereço e do que ainda posso dar. Com um coração aberto ao perdão, à paz e à simplicidade. Porque no fim, quando tudo se cala, é isso que fica.


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